quinta-feira, julho 12

Obituário - Artur Mário Mota Miranda (1928-2018)





Artur Mário Mota Miranda, que faleceu, com 90 anos, no passado dia 25 de Abril, era o decano dos ex-libristas portugueses, tendo dedicado a sua vida à divulgação e promoção do ex-líbris além-fronteiras.

Em finais dos anos 50’s do século passado funda no Porto com outros entusiastas e amadores de ex-líbris a Associação Portuense de Ex-Líbris (APEL) que em 1956 iniciou a publicação de uma revista - «A Arte do Ex-Líbris» com publicação ininterrupta até meados dos anos '90, dedicada em exclusivo ao mundo dos ex-líbris sob a direcção de Artur Mário Mota Miranda. Nem a sua carreira profissional nos quadros da Administração Ultramarina que o levaram a estadias prolongadas em África diminuíram o seu infatigável entusiasmo com a publicação atempada do Boletim. Infatigável pois pressupunha manter copiosa correspondência postal com coleccionadores, artistas, gráficas e associações congéneres.

A ele se deveu o estabelecimento pela APEL de frutuosos contactos internacionais com o renascente movimento ex-librístico europeu e com os artistas de ex-líbris activos em Espanha, França, Itália, Bélgica, Holanda, Alemanha, Dinamarca e sobretudo, nos países do Leste da Europa.

Com efeito, a partir de 1953 começaram a realizar-se Congressos de Ex-Líbris, em várias cidades europeias - Kufstein (Áustria), Lugano (Suiça), Antuérpia (Bélgica), Frankfurt (R:F.A.), Amsterdam (Holanda), Barcelona (Espanha), seguidos de Viena, Paris e Cracóvia em 1964 - reunindo artistas e colecionadores. Daí à fundação de uma organização na origem pan-europeia que aglutinasse as várias Associações nacionais foi um passo. A FISAE nascia assim, em 1966, no decurso do Congresso de Hamburgo, sob o impulso do Dott. Ing. Gianni Mantero, Albert Collart, Jean-Charles Meyer, Mme Meyer-Noirel e Carlo Chiesa, contando com 15 membros fundadores, entre os quais a A.P.E.L. que aderiu de imediato, sob a influência de Mota Miranda.


Sob os auspícios da FISAE foram publicados 7 volumes da obra «Artistas de Ex-Líbris» até 1984, tendo Mota Miranda assegurado a edição e publicação dos volumes III-VI, último publicado.

Acumulando as funções de Director e Editor do Boletim «A Arte do Ex-Líbris» com as de Presidente da Direcção da APEL que, em 1975, passaria a denominar-se Associação Portuguesa de Ex-Líbris, Mota Miranda imprimiu ao Boletim um cunho internacional de elevada qualidade gráfica e de conteúdo, divulgando a obra de vários artistas de ex-líbris, com realce para os oriundos dos países de Leste da Europa, a um vasto público de amadores de ex-líbris, concitando o apoio dos mais relevantes artistas e coleccionadores.

Decorridas duas décadas após a fundação da APEL e uma da fundação da FISAE, Mota Miranda apresentou em nome da APEL a candidatura à organização do XVI Congresso Internacional de Ex-Líbris, que se viria a realizar em Lisboa, de 16-20 de Agosto de 1976, com o inestimável apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Evento marcante realizado em condições muito difíceis, dada a situação em que o país vivia, Mota Miranda soube reunir à sua volta uma plêiade de entusiastas – com destaque para o eminente colecionador e artista Aulo-Gélio Severino Godinho, Eugénio Mealha, Fausto Moreira Rato e Sérgio de Oliveira - que levaram a bom termo a realização do congresso, com seis excelentes Exposições Temáticas de Ex-Líbris, Conferências e um Concurso Internacional de Ex-Líbris e, que envolveu, facto inédito, a realização de tradução simultânea nas conferências e na Assembleia dos Delegados.



 Entretanto, Mota Miranda meteu a ombros à tarefa de editar e dirigir a monumental obra de referência Ex-libris enciclopédia bio-bibliográfica da arte do ex-libris contemporâneo: encyclopédie bio-bibliographique de l'art de l'ex-libris contemporain: encyclopaedia bio-bibliographical of the art of the contemporary ex-libris: Bio-Bibliographische Enzyklopädie der Kunst Zeitgenössischer Exlibris: Enciclopedia bio-bibliografica dell'arte dell'ex libris contemporâneo, 30 vols, Braga, Edit. Franciscana, [1985-2003]. 




Seguida de outra colectânea intitulada Contemporary International Ex-Libris Artists, tendo editado 24 volumes [2003-2018].



Associando-se ao grande colecionador Italiano Prof. Gian Carlo Torre editou em 2003 a obra de referência sobre a temática Cervantina La aventura de Don Quijote en los ex-libris, edição limitada a 300 exemplares, com artigos de Gian Carlo Torre, Manuel Fontán del Junco e Mariarosa Scaramuzza Vidoni, e que inclui um Catálogo de Ex-Libris Cervantinos, de Gian Carlo Torre, José Miguel Valderrama Esparza e Artur Mota Miranda. Em 2013-2104, editou ainda duas obras temáticas de edição limitada «Women Artists in the World of Ex-Libris» e «Ex Libris Designers and their World».

Reconhecendo e prestando tributo à sua longa actividade como editor e difusor do ex-librismo a FISAE atribuiu-lhe em 2003, o Helmer Fogedgaard Certificate e, em 2007, o Gianni Mantero Certificate.









Artur Mota Miranda possuía um número invulgar de ex-líbris pessoais obra dos mais famosos artistas de ex-líbris dos últimos 50 anos, desde Eduardo Dias Ferreira, Paes Ferreira, Aulo-Gélio Godinho, Marie-Louise Albessart, Rene Barande, Charles  Favet, Jocelyn Mercier, Daniel Meyer, Raymond Prevost, E. Reitsma-Valenca, Antoon Vermeylen, Raymond Verstraeten, Christian Blæsbjerg, Julio Fernandez Saez, Maria Josefa Colom, Dafinel Duinea, Virgilio Tramontin, Pier-Luigi Gerosa, Ernesto Guffanti, Anatolij Kalaschnikow, Jaroslav Horanek, Miroslav Houra, Pavel Hlavaty, Miroslav Knap, Bohumil Kratky, Jana Krejcova, Mart Lepp, Arisztid Nagy, Arpad Daniel Nagy, Johann Naha,   Evald Okas, Herbert S. Ott, Béla Petry, Zoltan Vén, Jaroslav Vodrazka a Marius Martinescu.

E, ao longo de mais de meio século de actividade reuniu uma vastíssima colecção de ex-líbris com destaque para as temáticas que mais o atraiam – Modernismo e Arte-Nova e Cervantes.

Com Mota Miranda desaparece um dos esteios do ex-librismo em Portugal.